Sempre digo que viver precisa ser o bastante! Mas o que quero dizer com isso?

Desde que nascemos, respiramos expectativas o tempo todo, sobre tudo. Como se fosse uma estratégia mental automática, esse jeito de funcionar começa desde cedo a reger a nossa mente.  Crescemos acreditando que o que se espera, se alcança e que há um percurso certo, que ao trilharmos chegaremos ao abjetivo. Mas, não é bem assim.  Vivemos algum tempo até começarmos a desconfiar ou a perceber que não acontece dessa forma. Podemos sim, nos planejar e programar o que quer que seja, mas não devemos acreditar que chegaremos sempre ao objetivo traçado como imaginamos.  Vivemos para reparar que variáveis adversas ou nem tão adversas, se interpõe ao planificado e interrompe o fluxo esperado ou até mesmo nos faz mudar de rota. Em grande escala a pandemia nos trouxe essa experiencia que algo imprevisível, inesperado pode irromper nossas vidas e mudar nosso curso.

Na filosofia do pensamento complexo, chamamos esse fenômeno de Terceiro incluído. A pandemia, porém, foi da ordem do disruptivo, algo se atravessou em nossa rotina interrompendo-a drasticamente, violentamente. Mas em nosso dia a dia, sempre teremos aquilo que vem do outro ou das circunstâncias externas que afetam nossas planificações. É assim mesmo; isso é “estar em relação”. Dessa maneira, somos levados a refletir e a concluir que apesar do que queremos, planejamos ou objetivamos sobre algo, pode ser que não se realize. Seria sempre sábio deixarmos um espaço mental aberto ao que não desejamos que aconteça, um espaço em branco reservado a certeza de que é possível que coisas saiam diferentes do programado por nós. Por experiencia própria, nos sentimos mais calmos e vivemos menos ansiosos, o que nos deixa com mais pé no chão.

Para a filosofia Budista, esse é uma premissa que tece a realidade dos fenômenos; o princípio da impermanência!  A verdade de que tudo está em constate interação e que interagindo com demais fatores tudo pode se alterar e se transformar um pouco ou totalmente. Ao olharmos para a natureza fica simples e claro entender que os processos do semear ao florir e ao frutificar, tem em si a constância de movimentação interdependência e incessante transformação. A todo momento interagimos com as variáveis presentes; o que se manifesta para nós como a mudança de suas formas. Nosso envelhecer é assim! Olhe suas fotos e repare, apesar de nos vermos todos os dias no espelho, não reparamos o formar de cada ruga enquanto se forma, nem o desgaste natural de nossos órgãos e tecidos, músculos e ossos e a verdade é que nada detém esse processo!

Assim, surfar nas ondas da impermanência, seria compreender o que acontece naturalmente e vai se interlaçando e tecendo um processo que resulta em algo surpreendentemente novo, mas nem sempre desejado por nossa mente comum.  Preparar a mente, se conscientizando sobre essa verdade nos blinda de um sofrimento excedente que não precisamos ter! Ficaremos tão somente, com a difícil tarefa de digerir a verdade da mudança. Ainda sofremos quando nossa realidade muda e não desejávamos isso. Por outro lado, amamos quando uma fase ruim termina. Perceber que a mudança é inevitável nos torna mais capazes de atravessar os momentos difíceis, porque nutrimos a certeza de que ele também passará. Essa é a prática!

Então, aceitar é acolher a verdade de como os fenômenos se dão. De que tudo muda e nem sempre podemos controlar o resultado final, isso nos faz conseguir seguir com mais leveza, abertura interna e curiosidade. Acolher é estar presente enquanto a vida acontece para nós! E surfar na impermanência é buscar equilíbrio e diversão no movimento incessante das ondas, que ora nos dá um caldo, nos surpreende ou nos assusta; mas também pode nos dá alegria com a grande onda que conseguimos atravessar trazendo o frisson do novo que está sempre nos surpreendendo!

Um dia muito especial, ouvindo ensinamentos de um grande Mestre, acolhi sua sábia instrução em que dizia “Se tudo está indo bem, aproveite! Esteja lá com isso! Se não está nada favorável, fique aí com isso da mesma forma. Relaxe, porque também irá passar! Com o tempo dessa prática, você desenvolverá a equanimidade para receber o que quer que seja com igual abertura e liberdade interna”. Se ao contrário disso; quiser agarrar o que há de bom, fugir quando algo não agrada ou ficar indiferente, além de nada adiantar, você estará inundado de sensações perturbadoras e emoções aflitivas num ciclo sem fim!

Por isso, “surfar” também é o treino da habilidade de encontrar o ponto de estabilidade dentro de nós no movimento do mar e na vida enquanto ela acontece e com o que ela nos traz! Como conseguir isso? Esse é um tema para uma outra leitura por aqui! Mas será um pouco como o que o surfista profissional precisa fazer; treinar habilidades e meios hábeis necessários para vencer as ondas e tronar-se “Um” com elas!

O fato, é que a vida é vibrante e surpreendente e com essa visão mais aberta e espaço interno amplo, nos sentimos mais vivos! Simples assim! E é por isso, que viver já é o bastante!